[Longo] Qatar e PSG, e a impossível dissociação do esporte e política


A concretização do maior acordo de transferência do futebol mundial é mais um exemplo do forte poder de influência dos novos imperadores do futebol contemporâneo. No caso do PSG, uma das grandes ambições da Qatar Investment Authority (Qatar Sports Investment – QSI) é transformar o clube em uma grande marca esportiva global e o principal pilar de relacionamento entre o Qatar e Mundo. Uma propriedade esportiva que transmitiria os valores e qualidades da QSI para o mundo.

Embora o sucesso esportivo doméstico tenha sido assegurado, a ausência de conquistas internacionais dificultou o desenvolvimento comercial do clube desde sua compra em 2011. E o tempo passou…

Desde então o futebol mudou, o mundo mudou e a forma de se fazer negócios mudou! É nesse novo contexto, repleto de extremos, que aparece Neymar e o acordo de transferência mais caro do mundo.

Esse post tem com pilar o texto do professor Simon Chadwick para o The Conversation publicado no dia 01 de Agosto e incorpora referências de outras análises que saíram desde então.

Neymarketing nunca fez tanto sentido

A expressão vem do período da Copa do Mundo no Brasil e representou o excesso de uso da imagem do atleta nas propagandas de marcas patrocinadoras da Copa e da Seleção Brasileira. Naquela época Neymar apareceu em spots televisivos de pelo menos 5 marcas, aparecendo mais de 557 vezes em 19 dias no mês de junho 2014. (Purepeople).

Ainda que não seja novidade o talento do Neymar como garoto-propaganda, a “campanha” atual é bem mais discreta e poderosa, tudo por causa de uma cláusula contratual planejada para não ser quebrada: a multa por quebra antecipada do contrato! Tal multa faz com que o valor total do acordo de transferência seja maior que o dobro do recorde anterior de 89 Mi de Libras, pago pelo Manchester United para o jogador francês Paul Pogba em 2016.

Até certo nível, a aquisição da Neymar poderia, portanto, ser interpretada como uma aposta de alto risco para entregar a visão da QSI. Porém, há forte desacordo na estratégia de aquisição de jogadores sendo a última grande aposta do clube o Angel Di Maria, contratado em 2015. Por outro lado, é difícil afirmar que o PSG esteja estruturando uma super equipe ou que esteja ambicionando desestabilizar o mercado europeu ao buscar capturar outros mega talentos de gigantes europeus.

Ainda que nenhum dos casos mencionados possa ser confirmado, um fato é claro: Neymar é o garoto-propaganda da “campanha” de marketing atual da QSI. Toda especulação criada ao redor deste acordo, os conflitos de informações e a multa agressiva serviram para criar uma parte de uma história que se espera que seja de muita surpresa e satisfação.

Qatar: Copa 2022, polêmicas e a necessidade de afirmação Global

Simon Chadwick é professor da Universidade de Salford, Manchester, extremamente influente e forte conhecedor do mercado esportivo da Ásia e do Oriente médio. Em seu texto no The Conversation, Chadwick apresenta fortes argumentos relacionados à pressão que o governo Qatari está exercendo no mercado local devido à queda dos preços do petróleo. Fato é que o preço do barril de petróleo caiu 50% nos últimos 5 anos, o que tem colocado os países dependentes desta fonte de receitas sob uma crise jamais vista (como a Venezuela).

De acordo com o professor, a nova política fiscal do governo do Qatar tem afetado inclusive o orçamento da Copa do Mundo de 2022, além dos projetos de investimento e infraestrutura do país, o que tem pressionado a rota comercial para melhor performance. Neste cenário uma propriedade esportiva de destaque bem estabelecida na Europa (como o PSG) poderia se tornar o motor de negócios internacionais para o Qatar, aliviando futuramente a pressão sobre a dependência do petróleo.

Outro fator levantado pelo professor é a necessidade de autoafirmação do país perante seus vizinhos. Recentemente Qatar se viu em disputa com vizinhos importantes da região como a Arábia Saudita, Os Emirados Árabes Unidos e o Egito. Isso resultou em vários países cortando laços diplomáticos com Doha, e bloqueando as rotas comerciais tradicionais para dentro e fora do país.

A importância de se ter uma propriedade que faz barulho!

Se a entrada de Neymar no elenco do PSG significar maiores chances do clube ganhar a Champions League, o Qatar (e QSI) terá em suas mãos a melhor história para contar ao mundo. Para os torcedores e apaixonados por futebol, ficam as dúvidas quanto ao Fair Play Financeiro nda UEFA, além da expectativa de ver excelentes jogos no Campeonato Francês, quiçá acompanhar um trajeto de sucesso do PSG na Champions.

Se a história por trás do maior acordo de transferência no futebol mundial tem detalhes questionáveis, é curioso notar a importância que os novos imperadores têm dado aos clubes recém comprados. Não basta ter uma propriedade que funciona dentro do seu sistema de competições, é necessário que essa propriedade seja capaz de aparecer cada vez mais, de se destacar vez mais. A pergunta que fica é: Até onde eles estão dispostos a ir?

Nas palavras do Professor Chadwick: “Na verdade, embora muitos lamentem que o esporte e a política não se misturem, a transferência de Neymar demonstra que no século 21, o esporte é política. ”

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Crédito Img. Destaque

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