[Longo] A luta do século e o futuro do UFC


Dia 26 de Agosto foi marcado por um dos eventos esportivos mais midiáticos de 2017. A luta “The Money Fight”, entre Mayweather e McGregor agitou o mercado esportivo global com a promessa de um evento único, recheado dos ingredientes mais desejados pelos apaixonados por lutas – e esportes em geral: desafio, ousadia, provocação, títulos e dinheiro.

O hype, definido pela ansiedade ou excitação exagerada por algo a acontecer, foi construído à medida que o evento era promovido em cidades dos Estados Unidos, em Toronto e Londres, principalmente pelas incansáveis provocações de ambos lutadores repercutidas ao redor do mundo.

Fonte: golfdigest.com by Shane Ryan

O ponto primordial de sucesso desta luta foi o alcance global conquistado pelos promotores. Pessoas do mundo inteiro ficaram sabendo da luta entre Mayweather, um boxeador de elite, campeão mundial invicto em 49 lutas e McGregor, uma estrela do MMA com títulos em duas divisões do UFC e nenhuma experiência oficial em boxe profissional. O palco escolhido foi a T-Mobile Arena em Las Vegas, com capacidade para 20.000 pessoas sentadas na configuração Boxe.

Os ingressos foram comercializados pela Ticketmaster e custavam entre 500 e 10.000 dólares, com limite de venda de 2 ingressos por família (ou por CPF, se fosse no Brasil). No mercado secundário de vendas de ingressos, o valor unitário mínimo dos ingressos era 3.000 dólares. Neste mercado o preço dos ingressos é flutuante devido ao sistema de venda por leilão. A poucos dias do evento foi observado uma queda de mais de 50% no valor de alguns ingressos “encalhados”.

Curiosamente, o custo médio do ingresso para MacMay foi estimado em 3.521 dólares, com base em informações da CBS Sports. A luta Mayweather-Pacquiao no Madison Square Garden em 2015 teve custo médio de ingresso em 4.456 dólares. Para fins de comparação, em 2016 o custo médio do ingresso para um evento do UFC ficou em 417,34 dólares contra 155,85 para um evento de Boxe (nos Estados Unidos).

A luta foi apelidada de The Money Fight pela ambição dos promotores em bater o recorde de vendas de transmissão Pay Per View para 4,99 Milhões de pacotes. Cada pacote custou, no mínimo 90 dólares no mercado americano / 96,30 reais no Brasil.

Para alcançar essa meta foi necessário um exercício de marketing agressivo, muitas vezes pressionando a barreira dos limites de civilidade e discurso racial/sexista. A luta em si era apenas um detalhe dentro de um discurso promocional permeado pela provocação, agressividade e abuso verbal por parte dos competidores.

Para entender esse ponto convido você a assistir o vídeo abaixo (pelo menos uma parte) para sentir o nível da Promo. Destaque para 1:23:50.

Esporte espetáculo, ou só espetáculo?

Depoimentos de especialistas em artes marciais apontaram, várias vezes, para as dificuldades que McGregor enfrentaria para adaptar sua postura e golpes para as regras do Boxe. Apesar da força muscular do atleta, seria notório (e foi) a dificuldade de leitura da luta dada as diferenças das modalidades.

Do outro lado, Mayweather é o mais bem preparado e habilidoso boxeador da atualidade, com fortes técnicas de defesa e esquiva, que mesmo estando parado por dois anos dificultariam ainda mais a leitura de combate de McGregor. Se a luta fosse no octógono do UFC, o boxeador enfrentaria as mesmas dificuldades que McGregor aceitou enfrentar.

No olhar da indústria do Sportainment, iniciativas como esta apenas demonstram uma fraqueza intrínseca – não necessariamente negativa – do sistema esportivo competitivo estabelecido, onde promotores deste tipo de evento conseguem investimentos e arrecadações em ordens de grandeza distantes do que as competições tradicionais conseguem entregar.

Quantas lutas oficias de Boxe e do UFC seriam necessários para que as organizações lucrassem o mesmo que lucraram com o The Money Fight?

Para resumir: não há motivação esportiva que justifique a luta, mas sim a ávida ambição das partes interessadas em produzir uma história de 9 dígitos.

A força dos atletas desequilibra o sistema esportivo

Vivemos uma época em que a força de marcas renomadas tem perdido espaço no público que acompanha os esportes. A movimentação dos atletas ditos “SuperStars” tem criado mais ruídos que os desempenhos coletivos em diversos esportes, desequilibrando, assim, a pirâmide de forças entre atletas, clubes e eventos. O argumento contemporâneo de que as marcas dos atletas influenciam no debate do futuro das marcas dos clubes, que por sua vez influencia no debate do futuro das marcas dos eventos esportivos, como por exemplo as mudanças na UEFA Champions League 2018-21 nunca foi tão realista, e inversa ao que era tradicionalmente estabelecido.

Empresas privadas e investidores que observam esses movimentos com bastante interesse podem criar novas relações de negócios fora dos parâmetros do esporte organizado e nisso entram diversos tipos de iniciativas como a Breaking 2, desafio lançado pela Nike que contou com astros da Maratona Internacional e tinha como principal objetivo a quebra da marca de 2 horas para completar uma maratona, os eventos Star Sixes e Barça Legends x Real Legends que reuniram grandes estrelas do passado do futebol em amistosos, modo espetáculo.

Mayweather-McGregor foi um teste ao limite que a mídia, patrocinadores e público estão dispostos a encarar por um espetáculo.

UFC na casa da WME|IMG – Nova fase?

Fonte: thesun.com

No boxe o modelo de eventos únicos sempre foi bem-sucedido. De um lado uma lenda, o lutador a ser batido, invencível e invejável, e do outro um desafiante. As personalidades sempre foram usadas para vender as lutas e suas marcas pessoais sempre deram a conotação final do evento. Para o UFC essa realidade é algo muito novo. Antes de McGregor, Ronda Rousey, Jon Jones e o próprio Anderson Silva serviram de “cobaias” para essa nova visão “SuperStars”.

Nesse ponto é importante lembrar que o UFC foi comprado pela WME|IMG por 4 Bi de dólares em 2016 e que a WME|IMG é uma empresa mundialmente reconhecida pelo fortíssimo braço de Gestão de Talentos. Em seu portfólio podemos encontrar dezenas de estrelas de Hollywood, da indústria da música, dos esportes e de várias outras partes do entretenimento.

Além disso, o UFC já manifestou que pretende aumentar suas receitas com Direitos de Transmissão para pelo menos 450 Milhões de dólares ao ano. Um valor que gerou enorme discussão e dúvida na indústria esportiva.

Fonte: Michael Reaves / Getty Images @ Hollywood Reporter

Para alcançar esse e outros objetivos financeiros é evidente que a Gigante WME|IMG vai usar o máximo de sua expertise para transformar o UFC em um dos maiores espetáculos do planeta. Uma mudança que certamente desagradará os fãs do MMA-Raiz, mas que permitirá ao UFC de alcançar um patamar jamais visto na história do esporte.

A nova UFC certamente precisará entregar muito mais do que a TV está preparada para pagar e para isso precisará contar com a nova geração de “SuperStars” como embaixadores da marca e vendedores de confrontos espetaculares.

  1. Para piorar: precisará reinventar o produto para capturar a atenção dos Millenials, geração cada vez menos apegada à televisão e ao modelo antigo de MMA com grande teor de violência;
  2. Ainda pior! As novas negociações de Direitos de TV acontecem no pior momento da história da televisão mundial, com as operadoras de TV a Cabo sob ataque violento ao redor do mundo;

Despite the UFC’s momentum in recent years, the new negotiations come at a time when the cable bundle is under assault; worldwide sports leader ESPN has lost more than 10 million subscribers since 2011, a trend mirrored across the industry. – HollywoodReporter

Mayweather-McGregor foi apenas a primeira demonstração da força da nova UFC. A ser comprovada pela quebra de recorde da venda de Pay Per View.

Até lá, ficamos apenas com a promessa de uma história épica de uma liga que está patinando em suas finanças há algum tempo.

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